Os Dominicanos em Malaca, Camboja, Sião, ilhas de Solor e Timor 1

OS DOMINICANOS NA EXPANSAO PORTUGUESA, SECULOS XV E XVI

CONTRIBUTOS PARA O SEU ESTUDO

JULIETA MARIA AIRES DE ALMEIDA ARAUJO

LISBOA 1994

 

 Os Dominicanos em Malaca, Camboja, Sião, ilhas de Solor e Timor.

Pelos mares longínquos da índia, o enredado das rotas comerciais levava cada vez mais os portugueses a expandirem as suas zonas de acção. Perdidas na distância as suas terras natais, afastados dos seus lares, arriscavam tudo em cada viagem, a vida, a fortuna, a alma.

Malaca era um importante entreposto comercial que desde cedo atraiu a atenção de muitos portugueses. O controlo feito pelo estado do enorme montante de artigos comerciados era deficiente. Em 1543 Simão Botelho de Andrade foi enviado pelo governador para reformar as alfandegas e organizar as finanças. Os destinos da vida guardavam-lhe grandes feitos. No ano seguinte, Rui Vaz Perreira Marramaque, capitão da fortaleza, adoeceu gravemente pelo que Simão Botelho lhe sucedeu. Naquelas zonas distantes, quem se impunha pela força era quem governava. Assim, naquela altura, o capitão de uma nau que estava no porto, de nome Alonso Henriques de Sepulveda quis tomar o poder, pelo que se sucederam grandes distúrbios.

Outro nome se destaca então no serviço do reino, André Lopes, ouvidor, que não permitiu a entrada na fortaleza a Henriques de Sepúlveda, pelo que os seus planos foram gorados. Acabou por se entregar e regressou cativo ao seu próprio navio. Partiu daquelas paragens com receio que lhe confiscassem os bens, mas, guando se dirigia para Bengala foi atingido por uma tempestade e naufragou. Garcia de Sá torna-se o novo capitão em 1545, pelo gue Simão Botelho, já livre do seu cargo passou para Goa. Foi o autor do Tombo da índia, onde revela o seu carácter minucioso e observador das coisas da economia. A 23 de Setembro de 1554 chega a Goa o novo vice -rei, D.Pedro de Mascarenhas e foi Simão Botelho encarregado de retirar do porão a caixa do tesouro. Como por descuido dos oficiais não fora colocado lastro, a nau acabou por se virar. Simão Botelho, talvez impressionado por este facto, provavelmente considerado como um sinal dos céus, decidiu ingressar na ordem dos dominicanos, o gue efectuou em 28 de Outubro de 1555. O acidente gue sofreu a nau e tanto influenciou a vida de Simão é descrito assim: " a gual se perdeo na barra de Goa, polia pouca diligencia gue os officiais poserão ao desembarcar do fato, esguecendo-se de meter lastro nella, pella gual rezão se virou e tomou tanta agoa gue se foi ao fundo. Deste desastre tomou o veador da fazenda, Simão Botelho, occasião pera se fazer religioso de Sam Domingos" (1). Salientamos gue o objectivo do nosso estudo são os homens e os seus feitos, homens comuns, com todos os seus receios e fraguezas, gue por opção se tornam frades. Homens gue pela fé se distinguiram dos demais, gue de fracas forças fizeram grandes feitos. É assim interessante verificar gue Frei Diogo Bermudes, o vigário gue orientou a primeira comunidade dominicana na índia, tenha chegado a negar a absolvição a Simão Botelho, exactamente por motivos relacionados com a sua antiga profissão. Isto porque ele reformara a alfândega de Malaca sob as ordens de um governador e preparara os novos registos de Baçaim às ordens de outro, sem ter consultado o Papa.

 

 

Realmente, em alguns dos seus escritos Simão Botelho não favorece particularmente as ordens religiosas, e chega a fazer observações quanto ao dinheiro que gastam, achando que se poderia poupar. Mas após estar na Ordem dos Pregadores, vai muitas vezes usar os seus conhecimentos financeiros para obter fundos, sem prejuízo dos cofres reais, empregando para isso vários estratagemas, como seja utilizar dinheiros de mortos intestados. Na carta de Francisco Palha ao Rei, datada de 26 de Dezembro de 1553, são apresentados variadíssimos conselhos de negócios , sugerindo muitas vezes que se peça comfirmação a Simão Botelho pelo seu profundo conhecimento daquelas matérias(2). Este vem a falecer em Goa, cerca de 1569.

Os Conventos de Chaul, Cochiro, e Malaca são contemporâneos na sua fundação, em meados do século, altura em que os Religiosos de S.Domingos se dedicam intensamente à conversão da gentilidade da ilha de Goa (3). A chegada dos frades ardendo em ideais de proselitismo faz com que rápidamente se fundem casas de apoio. Verissímo Serrão refere que no ano de 1556 surge a casa domínica de Malaca (4). Dois anos depois, Goa passa a arquidiocese e ficou com Cochim e Malaca com sufragâneas.

 

O Padre frei Gaspar da Cruz (15207-1570), eborense, do convento de Azeitão, seguiu para Goa com o vigário- geral Diogo Bermudes, em 1548. Pertence ao grupo dos frades que partiram à descoberta do mundo e à salvação das almas. Foi a Malaca, onde fundou a casa da ordem (5). Há autores que dão essa primazia ao Padre frei Francisco Robles pelo que aqui deixamos igualmente tal interpretação (6). Frei Gaspar passou ao Camboja, onde não encontrou ambiente propício à penetração do cristianismo, pois verificou, após muitos trabalhos, que o rei não tinha qualquer intenção de se converter. Como não obtinha a receptividade desejada por parte de rei, procurou evangelizar a população, que também não abraçava a nova fé, pois encontrava-se submetida ao seu senhor, quer temporal quer espiritualmente, seguindo as crenças dos seus antepassados.

Perante tal panorama desanimador, embarcou num navio chinês, tentando fazer frutificar a palavra de Deus em terras ainda mais distantes "e entrou pela terra dentro, e foi o primeiro Religioso, que lhes levou novas do Santo Evangelho " (7).

Esteve portanto na China, passando depois para Ormuz, onde pregou, sendo a sua palavra sempre inspirada e edificante. Foi um dos criadores da casa que lá existiu. Da China e Ormuz escreveu a sua Relação , o Tractado em que se contam muito por extenso as cousas da China, com suas particularidades, e assy do reyno de Ormuz, impresso em Évora em 1570. Esta obra constitui uma preciosa fonte para o estudo do Oriente no século XVII, bem como da penetração portuguesa nesta vasta área, que Frei Gaspar da Cruz conheceu pessoalmente e onde exerceu o seu múnus apostólico.

Depois de Frei Gaspar da Cruz ficou como vigário Frei Francisco Robles, castelhano, que já se encontrava na índia havia alguns anos. Aí permaneceu de 1555 a cerca de 1562, altura em que Frei Fernando de Santa Maria o substitui.

Segundo as fontes, Malaca colocava-se geograficamente a 500 léguas ao sul de Goa. Era uma cidade opulenta e chegou a ter um rico convento com uma linda igreja. Frei Luis de Sousa descreve o Convento (8). Desde a sua fundação, a Casa de Nossa Senhora do Rosário teve constantemente mais de cinco frades, havendo sempre a disponibilidade de poder enviar religiosos para as zonas do Sul.

Um alvará régio de 6 de Março de 1571 referido aos padres de S.Domingos que vão para Malaca menciona: " Eu El Rey, faço saber a vós Antonio Moniz Barreto, do meu conselho, que ora envio por Governador da cidade de Malaqua e mais partes do Sul, que eu ey por bem e me praz que os Padres de Ordem de São Domingos, que ora vão em vossa companhia, pera lá entenderem no negocio da conversão, se dê á custa de minha fazenda o que lhes for necessário, asy pera sua sustentação, como pera vestido, e embarcação, e matalotagem, quando ouverem de ir pera algumas partes" (9).

Como é de notar refere já o caso dos missionários dominicanos se deslocarem para outras partes, pois Malaca era o polo difusor dos religiosos por toda a zona sul. Dom António de Noronha numa provisão de 15 de Setembro de 1571, escrita em Goa, dirigida a Bernaldo de Afonseca, vedor da Fazenda do rei, diz que o vigário da Ordem dominicana lhe entregou o alvará real que acima mencionamos. Como o governador António Moniz de Barreto não partia naquela monção, para ocupar o seu cargo em Malaca, era necessário dar seguimento ao Alvará referente aos frades dominicanos, enquanto António Barreto não o fizesse, pelo que ele vice-rei ordenava que se cumprisse (10).

Frei Luis de Sousa menciona uma ordinária do rei, no valor de 400 cruzados de seis tangas o cruzado, frisando que isso acontecia apesar de, no momento, a casa só ter seis ou oito religiosos. Isto porque o prelado de Malaca era o Vigário Geral dos dominicanos da Ilha de Solor, Sião, Camboja e outras zonas do sul (11).

Outras fontes referem uma ordinária de 360 cruzados, que Manuel de Sousa Coutinho aumenta por uma provisão de 19 de Junho de 1590 para 400, sendo pagos na alfândega da cidade, pelos direitos das fazendas. Outra disposição desse ano dá a cada frade duas tangas por dia e vinte cruzados para matalotagem quando embarcassem.

No ano seguinte, Manuel de Sousa Coutinho, por nova provisão, proibia os outros pagamentos até o dos religiosos estar satisfeito (12). 0 número de frades, é confirmado por Frei João dos Santos que informa que, na sua época, no ano de 1606, a casa fundada por Frei Gaspar da Cruz tinha a residir, cinco ou seis religiosos (13).

 

Com as novas áreas geográficas surgem outras dioceses. A data da erecção da diocese de Malaca é explicada pelo Padre Manuel Teixeira. Segundo este estudioso, a bula Pro Excellenti  praeminentia de Paulo IV, estava datada segundo o ano da Encarnação , ou seja, com início em 25 de Março, e a data de 4 de Fevereiro de 1557 corresponde no calendário civil a 4 de Fevereiro de 1558 (14).

O primeiro Bispo desta diocese foi o dominicano Frei Jorge de Santa Luzia, religioso gue se distinguiu muitas vezes ao longo de uma vida dedicada ao apostolado. Partira para a índia na nau "Algaravia", do comando de Francisco de Sousa, em Março de 1559, e permaneceu à frente do governo do arcebispado de Goa até D.Gaspar de Leão Pereira atingir aguelas paragens, no ano de 1560.

O amor a Cristo não era sómente demonstrado durante a vida destes missionários mas, muitas vezes, pelo seu próprio morte. É o que se verifica, por exemplo, com o passamento de Frei Jerónimo das Chagas, mártir em Malaca, no ano de 1572 . Natural de Lisboa, escolheu dedicar a sua vida a Deus. Professou em 1 de Abril de 1562, tendo embarcado seguidamente para a índia, onde viria a falecer. Sobre este frade não encontramos mais referências, mas a 1 de Abril de 1572, dez anos depois, fez profissão de fé um religioso, frei Jerónimo das Chagas, também de Lisboa, que embarcou para a índia, onde viria igualmente a falecer. Pode tratar-se de um homónimo, mas supomos ser o mesmo frade, havendo um erro de datação (15).

 

Outro religioso cuja vida esteve ligada a Malaca foi o Padre Frei Jerónimo da Cruz. Sobre a sua ascendência sabe-se que era filho de pai nobre cujo apelido era Paiva, e o nome de família por parte da mãe era Chanorra (16). Foi baptizado na S6 de Lisboa e só tonou o hábito em 1561. Era Bacharel pelos cânones de Coimbra, com 30 anos.

Refere Frei Luis de Sousa : "O primeiro anno depois de professo foi ordenado de Epistola, e Evangelho" (17). Cumpria com a tradiçáo da Ordem de se dedicar aos estudos, mas o seu destino não seria tranquilo. Assim, no ano de 1562 partiam para a índia quatro religiosos e à abalada, na impossibilidade da ida de um deles, Frei Jerónimo da Azambuja, Provincial, mandou-o tomar o lugar do que ficava. Seguindo as regras de obediência partiu sem queixumes, apesar de deixar a mãe na capital. Para melhor poder exercitar o seu mister, o Padre Frei Estevão Leitão, Prior, ordenou-o de missa e no dia seguinte recebeu Ordens pelas mãos do bispo Dom Belchior Belleago. A partida atribulada do nosso religioso pode ser considerada prenúncio da sorte que o esperava, tanto durante o percurso como no destino.

As viagens da carreira da índia eram geralmente ensombradas pelo perigo de naufrágio, devido ao desencadear dos elementos da natureza ou pela má conservação das naus. Havia evidentemente questões, rixas e desentendimentos, quase sempre guardados oara resolução posterior, em terra firme, devido aos bandos proibitivos que os capitães faziam lançar pela nau. Neste caso, o causador da agitação foi um jovem nobre que com palavras escarnecedoras demonstrava a sua falta de respeito para com os céus.

Frei Jerónimo da Cruz, incapaz de suportar tal atitude, admoestou-o vivamente, pelo gue o jovem afrontou-o com um estalo. Os ânimos exaltaram-se, saindo em defesa do nosso frei vários laicos que tomaram para si a ofensa. O capitão, procurando contornar a dificuldade, enviou Frei Jerónimo para outra embarcação, o que ele aceitou, apesar de inocente.

Longe dos seus irmãos, mas talvez mas perto de Deus, atinge êxtases, que mais tarde lhe vão grangear fama na índia . De Goa parte para Malaca por indicação do vigário geral, e depois para Sião por mandado do prior do convento, que era vigário dos religiosos. Acabou a sua vida com a palma do martírio nesta última empresa, no ano de 1566 (18).

Em Malaca estava o Padre Frei Sebastião do Canto que se tornou o companheiro de frei Jerónimo da Cruz na pregação em Sião (19). Naquela cidade, a circulação de Religiosos era muito intensa e a permanência breve, pois eram enviados para onde fossem considerados necessários. O Padre Frei António da visitação foi deputado do Santo Ofício de Goa e Pregador Geral da Congregação. Com a tarefa de escrivão ficou o Padre Frei Damião de Santo Tomás. Faleceu cerca de 1614 após uma vida dedicada à religião. Esteve no Convento de Goa, onde leu Teologia, salientando-se nos seus trabalhos e sacrifícios pelos pobres. Foi encarregue pela Obediência do governo de algumas casas, tarefa em que demonstrou possuir grandes capacidades. Foi Vigário de Malaca e das Cristandades do Sul, onde foi Superior. No seu regresso a Goa foi eleito Prior do Convento de Santo Tomás, e nomeado pór Prégador geral (20).

Entre as altas dignidade, um bispo de Malaca que se distinguiu foi Dom Frei Jorge de Santa Luzia (21). Em Julho de 1528 fez profissão de fé no convento de Nossa Senhora da Misericórdia da Vila de Aveiro (22). Estudou Filosofia e Teologia mas destacou-se principalmente como religioso, pela sua humildade, calma e prudência. O bispo dos Açores, Dom frei Jorge de Santiago, da Ordem dos Pregadores, convidou-o para o acompanhar o que ele aceitou. Passaram uma viagem tormentosa antes de atingirem o seu destino.

O Bispo enviou frei Jorge de novo a Lisboa, onde chegou em 1557, com a importante missão de falar com o rei. Refere Frei Luís de Sousa que o monarca teria dito, ao saber da chegada do religioso, que já havia bispo para Malaca. Realmente, pretendia-se que aquela cidade se tornasse sede de Bispado, como viria a acontecer, e é possível que o rei tenha escrito ao bispo dos Açores com indicações para enviar de volta o companheiro. Obtiveram-se as Letras da Sé apostólica e no Domingo de Ramos de 1558 foi sagrado em S.Domingos de Lisboa. Na quinta feira fez o primeiro Pontifical e partiu logo. Esteve cerca de 14 meses em Goa, até á chegada do Arcebispo, Dom Gaspar de Santa Maria, que foi o primeiro com o título de Primaz da índia. Passou então para o seu bispado e a sua estada na índia refere muitas maravilhas (23),    conseguindo até a conversão de um herege inglês(24).

Em 1561, D.Jorge de Santa Luzia chegou a Malaca (25). A data encontra-se referida numa sua carta de 1567 : " todos os annos depois que qua esttou qye fez a 13 dias deste natal seis annos" (26). Numa carta do jesuita, Padre Jerónimo Fernandes, de Malaca, escrita a 2 de Dezembro de 1561, revela que " Avera quinze dias que Nosso Senhor consolou esta terra com lhe trazer ho bispo Dom Yorge, frade dominico, pastor religiosíssimo. Ya deu mostras de muita edificação, com pregar e confessar como qualquer padre, este yubileo. Esperamos em o Senhor que, com sua prezença, se evitarão muitos malles. Ja começou a entender em cousas da Inquizição e vicio sensual, como o mais pestifero e dominativos nestas partes" (27).

Apesar da opulência do seu comércio e das suas belezas naturais, os arredores de Malaca encontravam-se infestados de feras, os reimões ou caimões, que chegavam a invadir a cidade. O bispo ordenou uma procissão para os amaldiçoar e afastar, o que parece ter conseguido, já que não voltaram a atacar a cidade. Na sua carta de 1567 para frei Reginaldo, prior no mosteiro de Aveiro, descreve aspectos da sua vivência na índia, desde o atraso havido com a correspondência, pois podia demorar cerca de um ano a chegar, até à dificuldade em enviar e receber peças para a igreja, passando pelo preço dos escravos, a falta de dinheiro e o preço exagerado dos géneros de primeira necessidade e das casas. No final da carta menciona ainda ter já enviado uma renúncia ao cargo de bispo, renúncia essa que fora recusada pelo rei e que dirigira outras missivas ao provincial Francisco Bovadilha e a Frei Francisco Foreiro para regressar ao reino (28). O seu trabalho de recuperação e orientação de almas não frutificava como era desejado e chegou a ser vítima de uma tentativa da envenenamento efectuada por uma mulher, mas que no final vitimou o vedor (29). Outro sinal das bênçãos de Deus para com este religioso foi o tê-lo avisado por meio de visões que os Achens, tribo vizinha e aguerrida, iam atacar,  pelo que pôde avisar o capitão da fortaleza e organizar devidamente a defesa. Podem ter sido estes os acontecimentos vividos em 13 de Outubro de 1573, quando os achens cercaram Malaca para que a falta de abastecimentos levasse à queda da fortaleza, ou os do ano de 1575, quando tentaram fazer o mesmo. Durante toda a noite estiveram vigilantes, incluindo o nosso bispo e os religiosos. Fizeram-se procissões e preces para pedir o auxílio de Deus.

Este tipo de actuação religiosa para obter a intercessão dos santos era frequente, principalmente nos momentos mais difíceis. As procissões constituíam igualmente uma forma de agradecer as graças obtidas, como a que o bispo fez para celebrar o regresso da Armada de Matias de Albuquerque, o capitão-mor do Sul, que venceu os achens no estreito de Singapura em 1577. Durante toda a sua vida vários sucessos considerados extraordinários ocorreram ao Bispo Dom Frei Jorge (30).

 

Em 1572 cantou a missa inaugoral da igreja de S.Paulo de Arcos, em Goa, aberta a 25 de Janeiro desse ano, acontecimento festivo e do maior significado religioso (31).

Esteve quase dez anos em Malaca tendo por fim resignado do cargo e ido viver para uma cela em Goa, em 1577. Durante esses anos actuou de forma a manter a ordem. No ano de 1574 faleceu Dom Francisco Henrigues, capitão ou governador de Malaca. D.António de Noronha, vice-rei da índia tinha feito uma provisão nomeando Tristão Vaz para lhe suceder, mas surgiram mais pretendentes ao cargo, pelo que teve que intervir o bispo para dar solução ao problema. Durante o governo de Tristão Vaz da Veiga, Quilidamão, governador de Japara, pôs cerco a Malaca e de novo o bispo interveio para ajudar á defesa da fortaleza. Conta Cacegas, na História de S.Domingos (liv.III, parte II, cap.XII) gue em 1577 guando o bispo pretendia resignar o bispado, os moradores se opuseram à sua partida. Estavam então no porto duas naus preparadas para a viagem de Malaca a Cochim, uma nova e outra velha. Conhecedor dos entraves colocados ao seu desejo, Frei Jorge mandou gue colocassem os seus pertences na nau velha. Lembraram-lhe então que a viagem era longa, mais de 500 léguas por mares muitas vezes revoltos. Como se recusasse a permanecer, pediram ao Capitão- mor do Mar, Matias de Albuguergue, que o impedisse. Mandou o Capitão que se prendessem os marinheiros, de modo a não puderem içar velas, mas frei Jorge estava decidido. Contou para isso com a ajuda dos irmãos da Confraria do Rosário que havia na cidade, homens do mar de naturalidade malaia, para içarem as vergas, abençoando-os quando regressaram a terra, depois de lhe prestarem esse favor.     

Uma das formas mais utilizadas pelos dominicanos para enraizar a fé era através da instituição das Confrarias de Nossa Senhora do Rosário. Em Malaca desde cedo deve ter surgido uma, fundada provavelmente por Frei Gaspar da Cruz ou pelo seu sucessor, Frei Francisco Robles, cerca de 1554. Parece ser esta referência a mais antiga a mencioná-la. Frei António da Encarnação na sua Relação escreve:

¨Todos estes progressos, e bons serviços a Deos que refiro, e muitos mais que pudera referir, são causados da devação do Sancto Rosario, que nestas partes vai em grande crecimento pellos nossos frades" (32). Assim iniciou Frei Jorge de Santa Luzia a sua viagem de regresso o Goa, com muito poucos marinheiros e mar perigoso, havendo o perigo de que, se amainasse o vento, não haver homens suficientes para fazer manobras. A viagem decorreu com vento de feição, tendo conseguido alcançar Goa, enquanto a nau nova naufragou pelo caminho. Recolheu-se o frade a uma cela na sua humildade e pobreza. 0 que amealhara fora enviado em grandes esmolas para o convento de Aveiro e porque resolvera pagar o custo da criação do Mosteiro de Almada ao seu fundador, o Mestre Francisco Foreiro, o que importara em mais de 12 mil cruzados.

 

Durante a sua vida era frequente enviar dinheiro para os conventos do Reino, como se depreende de uma carta de 1576, escrita ao Prior do Mosteiro de Aveiro e ao de S.Gonçalo de Amarante. Nela refere que enviou 2333 cruzados para as duas casas, dinheiro esse destinado a que em ambas se rezassem missas. Recebera depois uma carta de Frei Francisco Foreiro indicando que usara o dinheiro para São Paulo de Almada, onde seria rezada uma missa por alma.

O bispo reiterou a sua afirmação de que o dinheiro era destinado para duas missas e que, se assim não fosse , que os priores dos Mosteiros referidos funcionassem como seus procuradores com direitos sobre as importâncias enviadas (33).

Frei Jorge de Santa Luzia foi leitor de Teologia no convento de Goa. Durante o cerco desta cidade posto pelo Hidalcão esteve Goa em grande perigo. O bispo e D. Luis de Ataíde souberam que ia haver um atague concentrado numa das zonas mais fracas de defesa. O Vice-Rei e Capitão Geral, D.Luís de Ataíde, militar prudente, duvidou várias vezes de qual seria a estratégia mais correcta, já que o destino da índia estava em jogo. Frei Jorge opinou pela luta aberta e sem receios.

O capitão seguiu este parecer, travando-se uma dura batalha campal, em gue, por fim, os portugueses ficaram vencedores (34). Por altura da sua morte, Frei Jorge deixou ao seu convento três mil cruzados para um ornamento.

 

Temos notícia de outro religioso, frei Simão da Cruz, que em 1565 foi frade em S.Domingos de Coimbra, esteve no convento de Benfica e no de Amarante, e no de Vila Real. Tanto ele como sua mãe participavam na Capela deste bispo de Malaca (35).

Cerca de 1582, guando os franciscanos quiseram fundar o convento da sua ordem em Malaca, contaram com a participação activa do padre Frei João Baptista, de nacionalidade italiana. Como professara num convento espanhol, teve em Macau algumas dificuldades pois, na época, havia grande rivalidade entre portugueses e espanhóis. Chegou pois à cidade de Malaca onde, desembarcando " se foi agasalhar no convento que já aí tinham os Padres de S.Domingos, os quais com muita caridade o receberam..." (36).

Na índia, apesar das grandes distâncias, cruzavam-se os caminhos da missionaçãoe a circulação de religiosos era muito intensa. Assim, os vários reis locais quando queriam estabelecer alianças com os portugueses solicitavam a visita de alguns frades. Nesta época a ligação entre a religião e a política de Estado era muito forte, o comerciante, o soldado e o frade eram os embaixadores de Portugal.

Seguindo este costume, o rei do Camboja, Aprara Langara (1576-1596) pediu religiosos para o seu reino, onde já estivera frei Gaspar da Cruz. Do convento de S.Domingos partem dois voluntários, o padre Frei Lopo Cardoso e o padre Frei João Madeira (37).

 

O Vigário da Casa de Nossa Senhora do Rosário não manifestara grande interesse em satisfazer o pedido notoriamente   interesseiro      de        envio   de missionários. Contudo,  D.Leonis Pereira, capitão de Malaca, favorecia a pretensão e havendo voluntários, como era o caso de Lopo Cardoso e João Madeira, o vigário acabou por concordar.

Frei Lopo Cardoso já se encontrava havia algum tempo na índia, revelando boas capacidades ao serviço da fé. Assim fora Prior em Chaul, Vigário em Malaca e na cristandade de Solor.

A semente estava lançada e para o Camboja partiram igualmente os dominicanos António Orta, António Caldeira, Reginaldo de Santa Maria e Silvestre Azevedo ou Figueiredo, que lançaram imediatamente uma campanha de cristianização, de que resultaram alguns baptismos. Como a pregação não dava os frutos esperados, Frei João Madeira partiu para Malaca dar notícias ao seu Vigário. Este dirigiu-se pessoalmente para o reino de Camboja com novo companheiro do Padre Frei Silvestre de Azevedo. As intrigas dos bonzos e o pedido de Apram Langara dirigido ao vigário geral para que levasse ou influísse em Malaca na venda de alguns prisioneiros siameses, pedido esse que foi recusado, conduziu a retaliações. O rei dificultou a situação dos frades, responsabilizando-os pela fuga dos escravos e exigindo o seu preço. Penhorou mesmo obectos do culto e prendeu os religiosos.

Frei Lopo foi a Malaca para arranjar dinheiro e ficou retido o seu companheiro. Em Malaca obteve o dinheiro que se perdeu num naufrágio, tornou a adquiri-lo e embarcou para Goa mas tornou a perdê-lo, roubado pelos piratas. Frei Lopo acabou por regressar a Goa e recomendado pelo Vigário Geral da Congregação foi para a Igrejá da Nossa Senhora dos Remédios em Baçaim. Foi Prior de Cochim e faleceu em Goa a quando foi a um Capitulo. Na altura da sua morte os gentios de Baçaim viram-no a subir na companhia de anjos celestiais pelo que foram contar aos religiosos da igreja de Nossa Senhora dos Remédios (38).

No ano de 1585, o bispo de Malaca, Dom João Gaio Ribeiro, ao saber o grande número de cristãos, que os Religiosos da Ordem dos Pregadores tinham feito em Solor e Timor escreveu cartas ao Arquiduque da Áustria, Cardeal Alberto, e ao Padre Mestre Frei Jerónimo Correia, Provincial, pedindo padres.

No ano seguinte partiram cinco frades dominicanos de S.Domingos de Lisboa, Tomás de Brito como superior, Francisco de Matos, Luís de Brito, Francisco da Cunha, Gaspar Teixeira (39).

Sairam de Lisboa a 5 de Janeiro de 1586. A viagem, repleta de perigos, foi agravada pelo ataque de piratas ingleses mas conseguiram chegar ao seu destino (40). A História de S.Domingos refere-se ao "Sitio, e assento das ilhas de Solor, qualidade da terra, e da gente d'ellas; principio da sua Conversão, e christandade por meio da religião de São Domingos"(41).

 

Estas ilhas eram consideradas tão afastadas dos caminhos normais da navegação gue, ainda no século seguinte, eram denominadas por uma fonte gue se lhes refere "as derradeiras do mundo". Ao apontar os serviços prestados pelos religiosos dominicanos na divulgação da fé, sublinha que, desde cedo, possuindo casas formadas nas principais cidades, podiam partir para outras zonas. Desta forma, foram evangelizar o arguipélago de Samatra, onde estavam situadas as ilhas de Solor, terras sem nome de tempos antigos, conhecidas agora para glória da Fé, de que lhe forão apóstolos, e pregadores os Religiosos de São Domingos.

No arquipélago, a ilha principal era a de Samatra. Tratava-se de terras muito pobres, ao contrário das de Timor, nomeando três ilhas, Solor, Lamala e Lobobala, qualquer delas sem comércio natural, tendo que trazer produtos de outras zonas. Os padres dirigiram-se para Solor, a mais pobre, densamente habitada por uma população que vivia da pesca ou da agricultura. Praticavam a poligamia, havendo vários senhores nos diferentes lugares.

Em Solor o Chefe era designado por "Sangue de Pate", governando cada potentado a sua zona, sem haver rei. Nas outras ilhas são denominados "Atalaques". Também na História de S.Domingos há referência à ausência de rei em Solor, ao contrário do gue era afirmado pelo Padre Frei Antonio de São Romão. O único rei conhecido era o rei do Macassá, Mouro, que cobrava tributos.

 

Timor era muito rico em sândalo branco, que os comerciantes de Malaca passaram a ir buscar. Aproveitava- se toda a árvore, que era tão abundante na ilha que os naturais a trocavam por utensílios do dia a dia, pois não conheciam moeda (42). Assim os Portugueses de Malaca começaram a frequentar estas paragens , mas apesar de haver bons portos a carregação era demorada pela grande afluência de navios. A questão punha-se porque, devido às monções, os portos só eram seguros durante três meses, pois quando chegava o vento do sul não havia abrigo possível. Dias antes da monção surgir, começava a ouvir- se o seu ruido,  pelo que se procurava abrigo no triângulo criado pelas ilhas de Solor.  O interesse mercantil contribuiu assim para o melhor conhecimento destas ilhas. Os comerciantes portugueses acabaram por construir ali as suas casas. De qualquer modo, a partir de 1577 os dominicanos de Solor passaram a ter direito a 50 xerafins por ano, graças a um alvará do vice-rei Dom Luís de Ataíde (43).

O Padre António Taveira foi para Timor provavelmente para dar apoio espiritual a algum mercador amigo que temia a ar das ilhas, muito insalubre para os estrangeiros. Da estada deste sacerdote resultou um grande numero de conversões. A História de S.Domingos remete para Frei Gaspar da Cruz que afirma no prólogo do Livro da China que Frei Taveira ou Taveiro converteu 5.000 almas nas ilhas de Timor e Ende (44).

Quando voltaram a Malaca os religiosos falaram ao Bispo Dom Frei Jorge de Santa Luzia, entusiasmando-o com a

 

ideia da conversão das ilhas, e foi pensando em Solor que se dirigiu ao Prior do Convento de São Domingos de Malaca.

Foi portanto da casa de Malaca que parte para Solor o padre Frei António da Cruz acompanhado por três companheiros, a pregar o Evangelho (45). Do Convento de Goa nascera a ideia de fundar em Malaca um convento que fosse base de apoio para o sul. Agora a casa de Malaca tornava-se, ela própria, um centro de irradiação da fé. Naquela ocasião, o padre Frei Antonio da Cruz encontrava- se em Malaca e pelas suas capacidades e vida apostólica foi escolhido pelo prior para Vigário dos três companheiros que com ele partiam para Solor. Frei António da Encarnação refere que os três missionários que foram pregar eram frei António da Cruz, frei Simão das Chagas e frei Aleixo (46). Foi cerca de 1561, e era Governador e capitão de Malaca D.Francisco da Costa, que morreu em Fez. Quando chegaram os missionários fizeram com ramas e folhas um mosteiro com uma paliçada á volta, ficando separados dos naturais. Pregaram e converteram em paz por dois anos, até que surgiu uma armada de jaós que cercou a ilha, no que lhes valeu a paliçada, mas era certa a derrota.

A situação tornou-se desesperada e só a chegada de um galeão do rei, que fazia a viagem de Maluco para Malaca, muito bem armado, afugentou o inimigo. Desta forma, pela vitória das armas, se conseguiu a conversão de muitos, entre os quais o "sangue de Pate". Mas para melhor defesa da cristandade decidiu Frei António fazer uma fortaleza, o que realizou com a ajuda de uma esmola vinda de Malaca. O sítio foi bem escolhido, e a fortificação tinha cinco baluartes " tres da banda do mar, e dous da banda de terra: de baluarte a baluarte, onze braçâé1 de muro, também mui forte, e grosso" (47).

Colocada num muro ficou a igreja de Nossa Senhora da Piedade e os dormitórios dos frades, noutro baluarte situavam-se os aposentos do Capitão, da lado direito ficavam os portugueses e cristãos estrangeiros, cerca de 2.000, no lado esquerdo o "sangue de Patê" e o povo, cerca de 1.000. No recinto erguia-se ainda uma outra igreja, da invocação de S.João Baptista.

Os trabalhos iniciaram-se em 1566, mas desconhece-se a data da conclusão. Eram os religiosos que nomeavam o capitão, que era depois confirmado pelo governador ou vice rei, mas acabaram por desistir desse privilégio. Durante a construção continuaram a chegar religiosos de Malaca, pelo que frei António os espalhava pelas ilhas vizinhas com grande fruto. Foram para a Ilha do Ende mas eram poucos e no Inverno regressavam a Solor, o que preocupava frei António, que mantinha os Vigários Gerais da Congregação bem informados. Disto resultou salário para os religiosos, que foram distribuídos pelos lugares onde eram mais necessários, desde a ilha de Servite até Mari, distando cerca de trinta léguas.

Em Solor ergueram-se quatro igrejas, uma dentro e outra fora da fortaleza, como referimos, outra na casa da Misericórdia onde por alguns anos serviu Alvaro Gonçalves, um secular, natural de Malaca. O templo da Madre de Deus estava na serra de Guno (vulcão), servindo uns 1.000 cristãos, a que se acresciam os que estavam espalhados pelos montes. Havia também a igreja de S.João Evangelista, na Lamagueira, gue desapareceu após uma rebelião.

Na ilha de Lamala erguia-se uma igreja na cidade do mesmo nome, com dois terços da população baptizada, cerca de 2.000 almas, sendo os restantes moradores mouros, que lá tinham dois fortes. No interior, no lugar de Carma, havia o templo do Espírito Santo, onde trabalhou o Padre Frei António de Loreto. Tinha cerca de 1.300 cristãos fiéis, que resistiram aos levantamento em Lamala, de que resultou a destruição da igreja lá existente. Na Ilha Grande, cuja ponta fazia o canal a que chamavam de Servite,com vinte léguas de diâmetro, a messe foi frutuosa, convertendo-se muitos naturais, o que levou à edificação de oito igrejas, em diferentes zonas:

"São Lourenço em Lavunana, ou Lavunama, lugar situado na ponta de Servite: Nossa Senhora em Larantuca, onde foi muitos annos Vigário o Padre Frei Agustinho da Magdalena, Saboyano de nação: Nossa Senhora da Esperança no lugar de Bayballo; em que padeceo gravíssimos trabalhos de doenças, e necessidades o Padre Frei Domingos Barbudo: Santa Luzia na povoação de Siccá, onde era Atalague Dom Cosmo, muito bom Christão, que passou a Malaca, sendo moço, e alli se criou entre os nossos Padres: Outra Igreja no lugar de Paga, que he huma legoa diante de Siccá, e terra de muitos mais moradores: Nossa Senhora d'Assumpção na povoação de Quevá: São Pedro Martyr em hum porto, que chamão Lena. Esta Igreja foi destruída por hum pirata de Maluco: e o Padre Vigário geral a mandou reedificar, e a encommendou ao Padre Frei Balthasar de Torres natural de Cochim: Nossa Senhora da Boa Viagem na praia de Dondo, que he huma ribeira, que sahe na contracosta da ilha, e responde ao lugar de Quevá, com dous dias de caminho em meio: veio a desemparar-se, porque os fregueses vivião longe nos lugares mais acommodados a sua vivenda: e o Vigário que os doutrinava, não se atreveo a morar só na praia" (48). Constituiam assim uma comunidade de cerca de 13.000 cristãos, a que se acresciam as três igrejas de Ende, sendo no total as dezoito Igrejas referidas por Fr.João dos Santos, embora sem nomear todas (49).

Os Padres fundaram portanto três igrejas na ilha do Ende, e para maior segurança da terra edificaram outra fortaleza. Ocupavam-se no ensino do povo, sem receio dos grandes perigos e trabalhos por que passavam e, por vezes, a recompensa era o martírio.

A ilha de Ende, muito pequena, tinha por única riqueza natural as palmeiras bravas, pelo que a população desenvolvera a arte de comerciar e ganhar fora o seu sustento. Ficava frente à Ilha Grande, à povoação de Mari. A população recebera muito bem os padres, tendo havido muitas conversões. Uma armada de Jaós que pairava nas proximidades atacava frequentemente as ilhas, pelo que a população estava dispersa por Quevá e Lena, sendo ajudados pelos padres de Solor.

 

Para evitar as desastrosas consequências destas acometidas, o padre Frei Simão Pacheco propôs à população a ida para Solor, acabando por decidir-se a construção de um forte, com um capitão português. Em troca, todos aceitariam o baptismo.

Após a construção, de pedra e cal, com a mesma planta da fortaleza de Solor, o capitão foi Pero de Carvalhaes, natural de Évora. Criaram-se três povoações, Xaraboro, Currolallas e Numbas, cada uma com seu religioso dominicano.

Na primeira eeguia-se a igreja de Santa Maria Madalena, na segunda, a de santa Catarina de Sena e na terceira, com a fortaleza, estava o templo da invocação de S.Domingos, cujo vigãrio era Frei Simão. Agrupavam cerca de 7.000 a 8.000 cristãos, a grande maioria da população da ilha.

As informações do primeiro quartel do século seguinte relatam os naufrágios ocorridos, num dos quais, em 1627, das naus que partiram da índia naquele ano de 1626, se tinham perdido nas costas da Galiza, os cadernos escritos pelo padre Frei Antonio da Visitação, que referiam que, para doutrinar, iam todos a escola. Só no seminário criado em Solor estavam cerca de cinquenta rapazes. Este franco progresso na missionação tinha a sua contrapartida de sacrifício e, frequentemente, a recompensa era a palma do martírio. Os padres sofriam por vários motivos, naturais ou não, chegando inclusive a passar fome, pois a paga do rei, 120 cruzados por ano a cada vigário, era feita na alfândega de Malaca, mas com tanta demora e falha, que os missionários passavam as maiores necessidades, o que muito espantava Frei Antonio da Visitação, afirmando que até 1606 entraram em Solor 64 reliqiosos de S.Dominqos, cheqando a residir juntamente duas dezenas de missionários (50). Sobre o Padre Frei Antonio Pestana, do convento de Goa, sabemos que passou a qovernar uma vigararia em uma das ilhas e que sendo atacada pelos mouros Jaós, estes o maltrataram até acabar-lhe com a vida : "(...) arrastando para a praya, onde lhe encravarão os dedos dos pes a mãos com agudas canas e por fim degolarão" (51). O padre Frei Simão das Montanhas morreu na ilha de Lamala devido a uma luta entre os da sua freguesia e os mouros do forte de Torrão. Foi trespassado por lanças quando incentivava os seus cristãos.

0 padre Frei Francisco Calassa, natural da índia, estava na igreja de São Lourenço, em Lavunama. Baptizou os habitantes de Tropobelle, a meia légua da igreja e para melhor os instruir na doutrina quis que se mudassem, pelo que a população se revoltou, matou o meirinho, o vigário e mais um rapaz.

Faleceram ainda mártires da sua religião, os seguintes frades dominicanos: Frei Álvaro, vigário de Paga , morto em Ende. Frei Paulo de Mesquita, morto por corsários holandeses entre Solor e Malaca por ser eclesiástico. O mesmo aconteceu com Frei Gaspar de Sá e Frei Manuel de Lambuão, que, vindos de Solor, cairam nas mãos de Mouros de Achem na ilha de Samatra.

 

Frei Diogo do Rosário e Frei André, que como chegara havia pouco tempo era chamado de "reinol", irmão de Padre Frei Sebastião da Vitória. Iam numa galeota para Solor mas foram atraiçoados e assassinados (52). 0 padre frei Luis da Paixão foi à ilha de Cupão, onde pediu de beber. Deram-lhe uma bebida local, provávelmente alcoólica, pelo que ficou transtornado. Conduziram-no até um despenhadeiro e lançaram-no. Mais tarde frei Bento Serrão recuperou o seu corpo (53).

A missionação estava a desenvolver-se bem quando surgiram problemas por causa de uma antiga separação na população. Esta cindia-se em dois grupos, os Damonaras e os Paginaras, cada um seguindo um dos irmãos ancestrais, Damon e Pagim, inimigos acérrimos. Os dois grupos, mesmo após a conversão, realizavam cerimónias diferentes. Os Paginaras tinham mais pontos de ligação com os Mouros, os Damonaras com os portugueses.

A questão surgiu quando o Capitão de fortaleza, Antonio d'Andria, manteve preso por 10 meses o chefe dos Paginaras, o Sangagi Dom Diogo, também "sangue de Patê" da igreja de São João Baptista.

Em Solor havia mais dois "Sangue de Patê" de nomeada, D. João na Lamaqueira e D.Gonçalo. D.Diogo dirigiu-se a eles, principalmente a D.Gonçalo, que sabia ter sido castigado pelo capitão da fortaleza e propôs-lhes que o matassem, assim como aos religiosos. Os motivos que apresentava eram vários, mas referia principalmente que os portugueses estavam a aproveitar-se do povo, pagando (comida) pouco aos marinheiros e aos que trabalham no forte, enquanto os quatro soldados estavam bem retribuídos, e que obrigavam os pescadores a terem duas barcas de serviço para eles.

Segundo o seu critério, os religiosos haviam trazido uma boa lei, que os portugueses não cumpriam, pelo que os naturais estavam melhor quando se regiam pelas leis dos antepassados (54).

Decidiram que o levantamento seria a 10 de Agosto de 1598, pois era comemorado São Lourenço em Lavunama, havendo missa, tendo ficado o "sangue de Pate" D.Gonçalo encarregue da missão. Este, após ter entrado na igreja com os seus homens, onde estava o capitão e os frades, achou melhor pedir permissão para o cometimento ao "Sangue de Pate" do lugar, António Luís, que não a deu, pelo que o intento saiu gorado. Foram avisados os religiosos, e Frei Francisco Thaca, da Batanha, vigário da Lumaqueira, foi a Solor prevenir o capitão para se preparar. Este apressou-se a contar o ocorrido a D.Diogo, que, com medo que se descubrisse a sua traição, decidiu apressar a vingança.

Para atacar Solor iria com a desculpa de assistir aos Pamacayos (concertos). Era terra constituir-se-iam três grupos, um para matar Antonio d'Andria, outro para atacar a fortaleza e outro ainda para entrar pelo Tanangarão (subúrbios) e queimar tudo.

No entanto, as coisas correram mal, pois não encontraram o capitão na fortaleza,que acabaram por tomar, matando o irmão frei Belchior, porteiro do Convento. O Padre Frei Diogo da Assumpção revelou ao capitão onde ficava uma porta secreta para a fortaleza, e foi por aí que os portugueses entraram para a retomar, o que conseguiram. Como a povoação estava em chamas e havia vento em breve tudo ardia, nada sobrando a não ser cinzas (55). Os revoltosos fizeram saque e destruição em tudo o que encontraram, envenenando Cosme Romeiro, um velho que não renegou, e duas crianças de quatorze e quinze anos foram torturadas. Levaram um canarim de Goa, Lourenço Gonçalves, que fora Meirinho da igreja em Lamaquieras e abandonaram-no na ilha de Gallia, para servir depasto aos canibais

Como perseguiam a população e puseram cerco à fortaleza, os alimentos começaram a escassear,pelo que foi necessário que o padre frei Simão Pacheco, do Ende, enviasse arroz para o fortaleza.

Os levantados também atacavam os barcos em Timor, quando não abertamente, tomavam-nos por artimanhas. Assim, convenceram um barco que ia para Solor para não se dirigir a essa área por causa dos piratas Malucos e a coberto da noite mataram os mercadores obtendo sândalo e riquezas várias.

Foram espalhar a sublevação por vários lugares, como na Ilha Por outro lado, estenderam a sublevação a diversas zonas, como à Ilha Grande, onde a população de Bayballo se rebelou e queimou a igreja, obrigando o Vigário e os padres de Larantuca e Lavunama a abandonar a terra. Dois partiram para Solor mas o Padre Frei João Travassos, vigário de Bayballo, foi morto na ilha de Lucuraya (56).

 

Por esta ocasião, tiveram lugar vários casos considerados extraordinários, quer de castigos infligidos aos traidores, quer de benefícios aos fiéis: "Durarão os trabalhos de Solor até a entrada do me2 de março de anno seguinte de 1599. Vieráo navios de Malaca, juntou-se a gente d'elles com a da fortaleza, deráo sobre a Lamaquiera em 24 do mez. Acommetido o lugar por mar, e terra, foi entrado com pouca resistencia, e não ficou cousa viva, e saqueou-se o lugar de quanto havia: depois foi assolado como terra de traidores, que merecia ser semeada de sal. E porque se veja o poder, que já tinha, he de saber, que vieráo d'elle para Solor, noventa e tantas embarcações entre grandes, e pequenas. E tal foi o fim d'este alevantamento" (57)

Também na ilha de Ende se fizeram sentir os inconvenientes da guerra. Foi causador o rei do Macassá, que estava disposto a guerrear todas as terras da cristandade de Solor (58).

Nos últimos anos do século XVI, o padre Frei Paulo de Mesquita era vigário da Cristandade do Ende e seu Visitador, na vez do Bispo de Malaca. Nesta altura, os Numbas entraram em guerra com os habitantes das montanhas, encontrando-se os padres em perigo de vida. A chegada a Solor do padre Frei Simão Pacheco, que já governara aquela zona e era bem visto pelo povo, concorreu para a pacificação. Assim escreveu aos Atalaques e conseguiu alcançar a paz (59). Pouco depois, surgiram graves questões na Ilha Grande, no lugar de Mari, perto de Queva e frente a Ende. Aqui vivia Amequira, que decidiu tornar-se senhor de Ende e Solor. Foi propor ao rei mouro do Macassá, ilha próxima, que lhe cedesse uma pequena armada, em troco da qual lhe daria o seu território, ficando apenas como vice- rei. Receberia cem escravos por ano e um pote com ouro. Segundo Amequira, conquistar Ende seria fácil, pois os naturais não gostavam dos portugueses e para Solor a solução era tomá-la à traição. Forneceram-lhe quarenta embarcações e para cima de 3.000 homens, indo como general D.João, um renegado. Oirigiram-se para Solor, simulando uma embaixada de paz, mas os portugueses desconfiaram. Tinham na altura a sorte de terem soldados, pois, em 1601 partira Fernão Pereira de Sande para Malaca num galeão, mas naufragou na Costa de Jaoa, nos baixos da Parsada, junto ao Reino de Sirubaia, pelo que os náufragos se meteram no batel e aportaram a Solor. Os atacantes ao constatarem a presença de forças superiores às esperadas,  embarcaram para o porto de Sicá, na Ilha Grande, e exigiram a entrega do vigário e dos portugueses, em troca da paz e do pagamento de tributo. Recusadas as condições, passaram ao ataque que lhes saiu mal, pois perderam muitos homens.

Dirigiram-se então ao porto vizinho de Pagá, a pedir tributo, o que foi satisfeito, partindo depois para Ende. Pararam em Mari e em Lena,onde estava o padre frei Jerónimo de Mascarenhas que, sem saber do perigo, foi falar com D.João. Disse D.João vir castigar os Endes, pelo que o padre voltou para avisar a população. Enviaram-se cartas para Solor a pedir auxílio, e dali vieram o padre Frei Simão Pacheco com Fernão Pereira e homens de guerra, que tiveram um recontro com os atacantes.

No meio destes perigos foi apanhado Frei Jerónimo de Mascarenhas, nascido no reino, pois estava na altura com o renegado D.João, sendo morto. Seguiu-se a guerra mas os invasores acabaram por recolher à sua terra coro grandes perdas, fazendo mais tarde a paz.

Viveu-se então uma época de tranquilidade, pelo que o Frei António da Visitação compara com a vivida em Malaca. As igrejas são reparadas, adornadas coro peças da China e mandadas cobrir com telha por Frei Simão Pacheco. Conhecido o bom resultado que a missionação estava a obter nestas paragens, os religiosos acorriam constantemente. As vidas edificantes e dedicadas ao apostulado eram exemplo para aqueles que chegavam. Assim aconteceu com a permanência na terra do padre Frei António da Cruz, que teve uma vida dedicada à fé, tendo fama de haver praticado muitos milagres, pelo que era considerado santo. Morreu nesta zona (60).

O padre Frei Simão das Chagas serviu nestas ilhas, sendo considerado como seu protector. Obrou feitos maravilhosos, testemunhados por muitos e autentificados pelo Ordinário de Malaca, cujo bispo era D.João Ribeiro Gaio. Um dos casos citados referia-se a certa ocasião em que o frade estava às portas da fortaleza de Solor, esperando a chegada do navio vindo de China ou de Malaca. Apesar de estarem fora da época própria,o frade insistia que vinha ali ura navio, que mais ninguém via. Passou a noite e não chegou qualquer embarcação mas, eis que no dia seguinte a embarcação tomou porto, deixando todos espantados e a pensar em intervenção divina. Outro caso considerado milagroso passou-se durante um cerco à fortaleza. Como a fome era muita, estava livre a porta para o porto, pelo que Frei Simão colocou o seu bordão na água e logo um cardume de peixes se aproximou. Encheram muitas canastras e até atiraram uma para o campo inimigo, o qual perante tanta fartura se retirou. Em outra ocasião, quando não havia vinho para a missa, Frei Simão das Chagas insistiu com o sacristão para ir ver as talhas, que lá haveria o necessário.Aconteceu como predissera, encontrando repletas as talhas que antes estavam vazias.

Certa vez, durante uma travessia em que começou a chover, os soldados estavam preocupados para não molhar as armas.O santo chamou-os para ao pé de si, à popa do barco e ali não chovia como em todo o resto da embarcação, facto que é relatado como tendo acontecido por diversas vezes com este santo.

Cnta-se que certa vez com o seu rosário expulsou o demónio a uma mulher. E ao dar a benção a uma criança cujo pai tinha partido havia muito, disse-lhe que volltaria no próprio dia, o que aconteceu.

Refere Frei Luis de Sousa que o "estromento" que lhe serve de fonte de informação foi extraido das suas obras conhecidas pela população, pois já haviam falecido os frades que podiam testemunhar outros factos. Sabe-se que tinha muita paciência para os que sofriam de doença ou se encontravam mergulhados na pobreza pobreza, e uma vez que o vigário geral se ausentou, dispendeu grandes somas com os pobres(61). Através da sua pregação e do seu exemplo, bem como da da dos seus companheiros foram fundadas 20 igrejas que se mantiveram até à chegada dos Holandeses (62).

Depois de morto apareceu muitas vezes a marinheiros em perigo, evitando naufrágios. Assim, surgiu igualmente a seu discípulo Paulo Ribeiro, quando este estava ao leme, aconselhando-o a seguir outro rumo, o que ele fez, escapando ao desencadear de uma grande tempestade. Também curou da cegueira espiritual e do desespero um outro discípulo, de nome Antonio Pereira, que ia cometer suicídio. O "estromento" referente aos milagres deste religioso refere ainda casos ocorridos com mais um frade e com um leigo.

Frei Antonio de Aguiar morreu no caminho para uma ilha vizinha a mando da obediência, tendo predito a sua própria morte antes de partir (63).

O leigo era frei Aleixo, que pelas suas muitas virtudes e espírito de sacrifício ia baptizar e catequizar lugares longuínquos. Ao dedicar-se à oração levitava, pelo que "foi visto muitas vezes levantado da terra mais de covado" (64).

Sobre frei Belchior nada se sabe, só o nome.

 

 

publicado por op às 22:15 | comentar | favorito